Se existe um dogma no ecossistema cripto, é a famosa frase: “not your keys, not your coins“. Para quem leva isso a sério, a solução de ouro sempre foi utilizar uma carteira hardware (cold wallet) um dispositivo isolado da internet projetado para manter as chaves privadas totalmente seguras. Porém, no dia 30 de julho, essa certeza levou um golpe duríssimo.
Em um intervalo de apenas 41 minutos, um hacker drenou 1.196 endereços de Bitcoin de uma só vez, levando nada menos que 1.082,65 BTC (equivalente a cerca de US$ 70,2 milhões na cotação do momento). O vetor da invasão? Uma falha de firmware silenciosa nas carteiras Coldcard, fabricadas pela canadense Coinkite.
O erro invisível de 2021: como o ataque aconteceu
Para entender o tamanho do problema, precisamos olhar para como uma carteira gera sua “seed” (as 12 ou 24 palavras de recuperação). Dispositivos de segurança usam um gerador de números aleatórios via hardware (TRNG/RNG) para garantir que a chave criada seja estatisticamente impossível de ser adivinhada.
Análises detalhadas da Galaxy Research revelaram que uma atualização de integração de código realizada em março de 2021 desviou por engano o processo de geração da seed. Em vez de usar o gerador aleatório por hardware do chip STM32, o sistema passou a usar um gerador pseudorrandômico (PRNG) por software totalmente determinístico.
Na prática, isso significa que as chaves criadas a partir dessa versão do firmware não eram verdadeiramente aleatórias. O atacante conseguiu mapear o padrão do algoritmo e reconstruir as chaves privadas de centenas de usuários em lote.
A falsa sensação de segurança do hardware físico
Esse incidente traz à tona um alerta incômodo: um dispositivo físico não é mágico. Ele roda software por dentro, e firmware contém código escrito por humanos. Se a etapa de geração da semente (o momento mais crítico da vida de uma carteira) for comprometida na origem, toda a segurança física do chip seguro vai por água abaixo.
Até mesmo nomes influentes da indústria se manifestaram. Changpeng Zhao (CZ) alertou publicamente que a dependência cega em carteiras físicas sem auditoria contínua e sem diversificação de custódia (como o uso de multisig) cria um ponto único de falha perigoso.
O que você deve fazer se utiliza Coldcard ou carteiras físicas
Se você possui criptoativos armazenados em carteiras Coldcard ou em qualquer outro hardware wallet, aqui estão os passos recomendados:
1. Verifique a versão do seu firmware: Certifique-se de atualizar imediatamente os seus dispositivos para as versões mais recentes fornecidas e validadas pelo fabricante.
2. Considere migrar a seed: Caso sua semente tenha sido gerada em períodos afetados por atualizações antigas, a recomendação mais segura é gerar uma nova seed com firmware corrigido e transferir os fundos para o novo endereço.
3. Avalie arranjos Multisig (Multi-assinatura): Para valores relevantes, não dependa de apenas um dispositivo ou fabricante. O uso de esquemas de assinatura múltipla (ex.: 2 de 3) impede que a falha de um único hardware comprometa todo o seu patrimônio.
O aprendizado para o mercado
A busca por custódia própria exige responsabilidade constante. O caso do Coldcard reforça que em segurança da informação e em cripto, a vigilância deve ser contínua e que até as ferramentas mais respeitadas do mercado precisam passar por auditorias de código rigorosas.
Você utiliza carteiras físicas de Bitcoin? Já verificou a procedência da geração da sua seed ou utiliza esquemas multisig para proteger seus fundos?







