O ecossistema global de segurança digital registrou uma mudança estrutural relevante na escala das ameaças cibernéticas ao longo da primeira metade de 2026.
De acordo com o mais recente relatório de ameaças divulgado pela Cloudflare, os ataques DDoS de escala hipervolumétrica aqueles cujos picos ultrapassam a marca de 1 Terabit por segundo (Tbps) deixaram de ser eventos isolados e passaram a ser executados em um ritmo recorrente por atores maliciosos em todo o mundo.
Durante o primeiro semestre do ano, a infraestrutura da empresa mitigou um total acumulado de 935 ataques na camada de rede que excederam o limiar de 1 Tbps.
O dado mais impressionante do levantamento indica um salto de 519% na ocorrência dessas grandes ofensivas entre o primeiro e o segundo trimestre de 2026, quando os registros saltaram de 130 para 805 incidentes dessa magnitude.
Trata-se de uma expansão volumétrica substancial em relação aos anos anteriores, impulsionada por novas táticas de amplificação de tráfego e pela automação avançada de botnets.

Escalada volumétrica e métricas do primeiro semestre
Ao consolidar os dados dos primeiros seis meses de 2026, o centro de inteligência de ameaças Cloudforce One contabilizou a mitigação de 23,2 milhões de ataques DDoS na camada de rede (L3/4) e expressivos 29,64 trilhões de requisições maliciosas na camada de aplicação (HTTP L7).
Na prática, esse volume equivale a uma média constante de aproximadamente 5.343 investidas na camada de rede por hora, ou cerca de 128 mil agressões digitais diárias direcionadas a servidores, APIs e serviços online.
O pico absoluto da atividade maliciosa no ano foi registrado durante o mês de abril de 2026. Nesse período de 30 dias, o volume de tráfego malicioso na camada de aplicação alcançou a marca recorde de 6,46 trilhões de requisições HTTP, acompanhado por 165 petabytes (PB) de tráfego destrutivo gerado exclusivamente na camada de rede.
Os dados da pesquisa destacam números expressivos sobre a distribuição desse volume:
- Crescimento de grande porte: Ataques entre 500 Gbps e 1 Tbps registraram alta de 143% entre o primeiro e o segundo trimestre.
- Faixa intermediária: Campanhas entre 100 Gbps e 500 Gbps subiram 105% no mesmo período comparativo.
- Volumetria acumulada: O tráfego total absorvido pelas defesas de borda durante o semestre superou 1,23 exabits de dados maliciosos.
Mudança de vetores: O domínio de DNS e a amplificação por CLDAP
No que tange aos mecanismos técnicos empregados pelos cibercriminosos, o relatório aponta uma clara transição dos ataques diretos baseados em botnets para táticas sofisticadas de reflexão e amplificação.
As investidas focadas no protocolo DNS consolidaram-se como o vetor primário das campanhas na camada de rede, respondendo por 34,3% de toda a atividade maliciosa registrada no semestre.
Analisando isoladamente o segundo trimestre, os ataques de inundação DNS (DNS Floods) responderam por 40% das ofensivas na camada L3/4, superando significativamente a fatia de 25,7% observada no primeiro trimestre.
Paralelamente, os ataques de amplificação via protocolo CLDAP (Connectionless Lightweight Directory Access Protocol) apresentaram uma explosão de 580% quarter-over-quarter, assumindo o terceiro lugar no ranking global de vetores mais explorados.
Além disso, os analistas identificaram um padrão crescente de campanhas multivetoriais. Os atacantes passaram a combinar inundações HTTP na camada 7 com perturbações simultâneas na camada de rede.
Essa estratégia permite alternar dinamicamente os métodos de agressão durante o incidente, aumentando a pressão sobre os sistemas de mitigação e dificultando o trabalho das equipes de resposta a incidentes.
Dinâmica temporal e automação das investidas
No entanto, a despeito do surgimento de campanhas hipervolumétricas, a distribuição mediana dos ataques DDoS manteve-se predominantemente de curta duração e baixo volume relativo.
Certamente, isso reflete o alto grau de automação das plataformas do tipo DDoS-for-hire e ferramentas operadas por scripts automatizados.
Cerca de 96,62% dos incidentes mitigados na camada de rede mantiveram-se abaixo do limite de 500 Mbps. Da mesma forma, 90,60% de todas as investidas foram neutralizadas ou encerradas em menos de 10 minutos.
Por outro lado, o segmento de ataques de longa duração também apresentou expansão: os eventos maliciosos com duração superior a três horas contínuas subiram de 38.865 no primeiro trimestre para 108.976 no segundo trimestre.
Geopolítica e impactos setoriais globais
O relatório revela ainda uma estreita correlação entre eventos geopolíticos globais e o direcionamento das campanhas maliciosas.
Já o setor de Mídia, Produção e Editorial figurou como o segmento mais atingido do mundo em ambos os trimestres, concentrando 14,2% de todas as requisições HTTP maliciosas mitigadas.
Esse foco é atribuído à intensa cobertura jornalística sobre conflitos no Oriente Médio, na Europa Oriental e grandes eventos esportivos internacionais.
Outro movimento expressivo foi registrado no setor governamental, que saltou da 29ª para a 9ª posição entre os setores mais atacados no mundo o maior avanço setorial do período, impulsionado por operações cibernéticas coordenadas durante tensões diplomáticas.
Ações internacionais de combate ao cibercrime, a exemplo da Operação PowerOFF coordenada por forças policiais em meados de maio e junho, demonstraram impacto direto no declínio temporário do tráfego malicioso após o pico de abril, reforçando a importância do combate global a infraestruturas de botnets.







