Segurança Digital

Coreia do Norte faturou milhões com falsos funcionários de TI e o FBI descobriu como

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Trabalhar de casa virou algo tão comum que ninguém mais estranha um funcionário de TI passar meses sem colocar os pés no escritório.

A Coreia do Norte aparentemente percebeu isso e resolveu transformar a tendência em um negócio bastante lucrativo. O detalhe é que os profissionais não eram exatamente quem diziam ser, e parte dos salários acabava financiando um regime conhecido por seu programa de armamentos.

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O Departamento de Justiça dos Estados Unidos revelou uma operação que envolveu trabalhadores norte coreanos contratados remotamente por mais de 70 empresas americanas. Utilizando identidades roubadas ou fabricadas, eles conseguiram empregos legítimos enquanto escondiam sua verdadeira localização e, principalmente, quem estava recebendo o dinheiro.

Para sustentar a fraude, contavam com a colaboração de pessoas dentro dos Estados Unidos que mantinham computadores corporativos conectados e acessíveis remotamente. Era uma espécie de escritório fantasma, só que com funcionários do outro lado do mundo e consequências muito mais sérias do que uma reunião que poderia ter sido um e mail.

Entre os dias 21 e 25 de setembro de 2026, o FBI realizou buscas em mais de 40 instalações suspeitas no Texas, apreendendo aproximadamente 187 notebooks e equipamentos utilizados para controlar computadores remotamente.

A ação recebeu o nome de Operation Lonestar Roundup e atingiu uma estrutura considerada essencial para manter o esquema funcionando.

Como a Coreia do Norte conseguiu empregos em empresas americanas

O funcionamento da operação explorava uma das maiores vantagens do trabalho remoto: a possibilidade de exercer funções sem estar fisicamente presente na empresa.

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Os envolvidos utilizavam documentos e identidades falsas para participar de processos seletivos e conquistar vagas na área de tecnologia. Uma vez contratados, precisavam superar um obstáculo bastante simples: receber e utilizar os equipamentos enviados pelos empregadores americanos.

É justamente nesse ponto que entravam as chamadas laptop farms, ou fazendas de notebooks.

Essas estruturas funcionavam em residências nos Estados Unidos, onde colaboradores recebiam os computadores enviados pelas empresas, instalavam programas de acesso remoto e mantinham os dispositivos ligados.

Assim, um profissional fisicamente localizado fora do país conseguia acessar um computador conectado a uma rede americana, criando a aparência de que estava trabalhando normalmente nos Estados Unidos.

Segundo a empresa de segurança cibernética CrowdStrike, que colaborou com a investigação, essas instalações ajudavam a contornar três barreiras fundamentais: presença física, movimentação financeira e verificação de identidade.

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O grupo responsável por essas atividades é acompanhado pela CrowdStrike sob o nome Famous Chollima.

E aqui está o ponto mais preocupante: não estamos falando apenas de alguém mentindo no currículo para conseguir um emprego melhor. Estamos falando de uma estrutura organizada para infiltrar empresas, obter acesso a sistemas corporativos e gerar receitas para o governo norte coreano.

Fraude movimentou cerca de US$ 3 milhões e atingiu diferentes setores

As autoridades americanas identificaram um esquema que teria operado entre 2019 e julho de 2025, movimentando aproximadamente US$ 3 milhões.

Michael James Bostelle, da Pensilvânia, e Juan Cecilio Pena Carrillo, do Texas, foram presos após serem denunciados em Ohio por crimes relacionados a fraude eletrônica, lavagem de dinheiro e roubo de identidade.

A denúncia também menciona dez acusados localizados na China, além de outras duas pessoas cujas identidades permanecem sob sigilo judicial.

Segundo os promotores, os participantes recebiam computadores corporativos, preparavam os equipamentos para acesso remoto e direcionavam os rendimentos obtidos pelos falsos funcionários para contas controladas pela Coreia do Norte.

As empresas atingidas atuavam em setores como saúde, comunicações, varejo e indústria, distribuídas por 17 estados americanos e pelo Distrito de Columbia.

Ou seja, não existia necessariamente um setor específico como alvo. Bastava haver uma oportunidade de contratação remota e controles de segurança que pudessem ser contornados.

Americanos eram recrutados para sustentar as identidades falsas

A operação também revelou como os envolvidos conseguiam superar etapas de contratação que deveriam impedir esse tipo de fraude.

De acordo com um alerta divulgado pelo FBI em 13 de outubro de 2026, os operadores norte coreanos passaram a contratar cidadãos americanos para participar de entrevistas por vídeo, validar identidades falsas, emprestar contas de redes sociais profissionais e encaminhar encomendas.

Em determinados casos, essas pessoas também emprestavam sua própria imagem para dar credibilidade aos candidatos.

O FBI destacou que indivíduos em dificuldades financeiras eram alvos estratégicos desse recrutamento.

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A lógica era simples: enquanto alguém nos Estados Unidos oferecia a aparência de legitimidade necessária para a contratação, o verdadeiro operador permanecia escondido e executava as atividades remotamente.

O problema é que participar desse tipo de esquema não representa apenas uma infração contratual. As autoridades alertam que os colaboradores podem responder criminalmente por suas ações.

E, convenhamos, emprestar sua identidade para alguém conseguir um emprego já deveria acender alguns alertas. Quando o salário termina nas contas de um governo estrangeiro, a situação fica consideravelmente pior.

O risco vai muito além dos salários desviados

Embora o dinheiro seja uma das principais motivações, as investigações também identificaram riscos envolvendo informações corporativas e dados pessoais.

Segundo o FBI, alguns trabalhadores conseguiram posições que ofereciam acesso a informações sensíveis. Esses dados foram extraídos e utilizados em outras atividades fraudulentas.

Em situações específicas, houve tentativas de extorsão contra os responsáveis pelas informações comprometidas.

As autoridades também relataram ameaças de morte direcionadas a antigos gestores e seus familiares após o desligamento de trabalhadores envolvidos no esquema, além de ameaças de divulgação de dados empresariais caso pagamentos não fossem realizados.

Isso muda completamente a dimensão do problema.

Uma contratação fraudulenta pode começar como uma falha na verificação de identidade, mas terminar em vazamento de dados, extorsão e comprometimento de sistemas internos.

Segundo as estimativas divulgadas pelo FBI, entre 85% e 90% dos rendimentos gerados pelos trabalhadores norte coreanos são destinados ao governo do país.

Para as autoridades americanas, esse fluxo financeiro contribui para sustentar programas de armamentos e outras atividades do regime.

Ryan Raybould, procurador federal do Distrito Norte do Texas, destacou que a investigação representa muito mais do que o combate a fraudes financeiras. Trata-se de impedir que um governo estrangeiro hostil utilize identidades roubadas e pontos de acesso clandestinos para se infiltrar em empresas americanas.

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O trabalho remoto virou uma oportunidade para ataques mais sofisticados

O caso não surgiu do nada. As autoridades americanas já vinham investigando estruturas semelhantes envolvendo trabalhadores norte coreanos e colaboradores locais.

Em novembro de 2025, cinco homens admitiram participação em esquemas que facilitaram a contratação desses profissionais por empresas americanas.

Já em abril de 2026, dois homens de Nova Jersey receberam penas de aproximadamente nove e oito anos de prisão por participarem de uma operação que gerou cerca de US$ 5 milhões para a Coreia do Norte.

A repetição desses casos mostra que não estamos diante de uma fraude isolada, mas de um modelo operacional que explora processos de recrutamento, tecnologias de acesso remoto e mecanismos de verificação de identidade.

Para as empresas, fica uma lição importante: verificar um documento e realizar uma entrevista por vídeo já não são garantias suficientes de que o profissional contratado é realmente quem afirma ser.

Processos de validação de identidade, monitoramento de acessos, controle de dispositivos corporativos e análise de comportamentos suspeitos precisam fazer parte da estratégia de segurança, especialmente em equipes distribuídas.

Isso não significa que o trabalho remoto seja o vilão da história. O problema está em tratar a contratação digital como se os mesmos controles de alguns anos atrás ainda fossem suficientes.

O que a operação do FBI revela sobre a segurança das empresas

A apreensão de aproximadamente 187 notebooks e o desmantelamento de dezenas de instalações representam um golpe importante contra a infraestrutura utilizada pelos operadores norte coreanos.

Mas também deixam uma questão que merece atenção: quantas empresas realmente sabem quem está acessando seus sistemas do outro lado da tela?

A transformação digital abriu portas para talentos de qualquer lugar do mundo. Ao mesmo tempo, criou oportunidades para criminosos que aprenderam a explorar a confiança depositada em processos de contratação e ferramentas corporativas.

No fim das contas, a Coreia do Norte não precisou desenvolver uma tecnologia revolucionária para entrar nessas empresas. Bastou combinar identidades falsas, acesso remoto e pessoas dispostas a colaborar.

E talvez essa seja a parte mais incômoda de toda a história: em muitos casos, o invasor não precisou arrombar a porta digital. Ele simplesmente passou pela entrevista, recebeu um notebook da empresa e começou a trabalhar.

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Felipe Ferraz

Profissional de tecnologia com formação em Análise e Desenvolvimento de Sistemas e MBA em Segurança da Informação. Atua na área de infraestrutura e segurança, escrevendo sobre ameaças cibernéticas, Linux e segurança digital.