Todo mundo acha que senha forte e criptografia são garantia de segurança absoluta. A verdade é que, no mundo real das grandes investigações, quando entra em cena a Polícia Federal com uma ordem judicial e um laboratório equipado o muro de senha muitas vezes cai. E o método não é “hackear” estilo filme de Hollywood: é perícia digital com tecnologia sofisticada e procedimentos meticulosos que respeitam cadeia de custódia e normas jurídicas.
A PF tem conseguido acessar dados completos de aparelhos apreendidos mesmo quando estão bloqueados por senha ou desligados algo que vai bem além de simplesmente “quebrar a senha”. Isso acontece graças ao uso de ferramentas de extração forense e a protocolos específicos de manipulação dos dispositivos.
O passo zero: evitar que os dados sumam
Antes de qualquer coisa, os peritos tratam o celular com o mesmo cuidado que se guarda uma evidência física frágil. O primeiro passo técnico é impedir qualquer comunicação externa. Isso é feito colocando o aparelho em uma estrutura que bloqueia sinais como Wi‑Fi, dados móveis e Bluetooth para evitar, por exemplo, que o dono apague remotamente tudo via nuvem ou gerencie o dispositivo à distância.
Esse “escudo” é baseado no princípio físico da gaiola de Faraday: uma caixa ou bolsa metálica que impede a entrada e saída de ondas eletromagnéticas. Assim, o celular fica isolado até a extração começar.
É aí que entram Cellebrite e GreyKey e por que não é plugar e usar
A Polícia Federal utiliza softwares e equipamentos de uso restrito que fazem o trabalho pesado de extrair dados. Dois nomes que aparecem com frequência são o israelense Cellebrite e o americano GreyKey. Essas ferramentas são capazes de se conectar ao aparelho e, em muitos casos, criar uma imagem completa da memória interna ou seja, copiar tudo que há lá dentro, não apenas o que aparece na interface de tela.
Não se trata só de “descobrir a senha”: elas tentam explorar vulnerabilidades no sistema operacional (Android ou iOS) que permitem acesso às camadas internas do aparelho. Em termos técnicos, isso pode envolver uso de brechas conhecidas ou ainda não documentadas que permitem contornar bloqueios de tela e criptografia.

Essas ferramentas também recuperam informações que o usuário apagou fotos, mensagens, registros de aplicativos e muito mais porque a maioria dos sistemas simplesmente não apaga imediatamente os dados na memória quando você “deleta” algo.
Quando nada disso funciona: o chip off
Tem celular que simplesmente não coopera. Se o aparelho está danificado, ou o sistema operacional está completamente inacessível, os peritos podem recorrer a uma técnica chamada chip off. É uma abordagem literalmente física: desmonta‑se o dispositivo, remove‑se o chip de memória e lê‑se os dados diretamente de outro equipamento forense.
Sim, esse método é invasivo, arriscado e exige técnicos altamente especializados. É usado apenas quando todas as alternativas digitais foram esgotadas. Mas quando funciona, pode revelar grande parte da memória interna que estava inacessível de outra forma.
Preço, licenças e equipamento que não é barato
Ferramentas como Cellebrite e GreyKey não são programas baratos que você baixa da internet. Licenças podem custar dezenas de milhares de dólares por ano o que reflete o alto nível tecnológico e o uso restrito dessa tecnologia.
Esse investimento prova duas coisas: primeiro, que a tecnologia por trás da extração de dados é complexa; segundo, que não é algo que qualquer investigador informal possa usar sem treinamento e autorização judicial.
Legalidade, mandados e limites
Importante: a Polícia Federal não pode simplesmente pegar um celular e fuçar sem autorização judicial. Todo esse processo de extração deve ser respaldado por um mandado judicial que delimite o que pode ser feito e analisado como prova. Até mesmo os laudos periciais precisam seguir normas rígidas para serem aceitos em juízo.
Ou seja: a tecnologia é poderosa, mas o seu uso é condicionado à lei. Isso é um alívio para quem se preocupa com privacidade… mas também um alerta de que, uma vez com autorização, a perícia digital pode literalmente reconstruir a vida digital de um investigado.
Senha de celular pode ser quebrada
No fundo, a moral dessa história é simples: o seu celular não é uma fortaleza inviolável. Ele pode ser uma mina de ouro probatória em uma investigação, porque guarda mensagens, fotos, localização, registros de aplicativos e metadados que dizem muito sobre sua vida bem mais do que você imagina.
E, com as ferramentas certas e uma ordem judicial, a Polícia Federal pode acessar tudo isso desde que siga os protocolos adequados.







