Não foi apenas Caracas que ficou no escuro. O episódio do apagão venezuelano ocorrido durante a operação que resultou na captura de Nicolás Maduro abriu uma janela rara para observar como os Estados Unidos enxergam, usam e agora admitem o poder cibernético em operações militares. Quando o próprio Donald Trump sugere publicamente que a queda de energia foi resultado de uma “expertise” americana, não estamos falando apenas de uma frase fora do script. Estamos falando de uma mudança de postura.
Durante décadas, a regra foi clara. Ataques cibernéticos existiam, eram sofisticados, causavam impacto real, mas ficavam envoltos em silêncio estratégico. Negação plausível sempre foi parte da doutrina. O que ocorreu agora foi diferente. Pela primeira vez, um presidente dos Estados Unidos deixou implícito, em uma coletiva, que o ciberespaço foi usado de forma ofensiva e deliberada como parte central de uma ação militar.
O que foi dito e o que não foi
É importante separar fatos de interpretações. Trump não descreveu tecnicamente o ataque, nem confirmou métodos, ferramentas ou alvos específicos. O que ele fez foi algo mais simbólico e talvez mais poderoso: associou diretamente o sucesso da operação ao colapso da infraestrutura elétrica de Caracas. A frase sobre a cidade ter sido mergulhada na escuridão “por causa de uma certa expertise que temos” foi cuidadosamente vaga, mas suficientemente clara para especialistas e governos estrangeiros.
O general Dan Caine, então presidente do Estado Maior Conjunto, foi um pouco mais técnico, embora ainda contido. Ele afirmou que diferentes comandos militares, incluindo o U.S. Cyber Command e o U.S. Space Command, atuaram de forma coordenada, “sobrepondo efeitos” para criar um caminho seguro para a entrada das forças americanas no território venezuelano. Em linguagem militar, isso significa interferir, degradar e confundir sistemas antes que o primeiro soldado pise no chão.
O papel do ciberespaço na operação
Relatos técnicos independentes indicaram queda significativa de conectividade de internet em Caracas no mesmo período do apagão elétrico. Autoridades venezuelanas atribuíram oficialmente as falhas a ataques externos. Não houve detalhamento técnico, e tampouco confirmação pública dos Estados Unidos sobre como essas interrupções ocorreram. Ainda assim, o encadeamento dos eventos é difícil de ignorar.
Além da energia, sistemas de defesa aérea de origem russa e equipamentos de radar fabricados na China teriam sido impactados, o que reduziu a capacidade de resposta do governo venezuelano. Nenhuma dessas informações foi oficialmente detalhada, mas todas apontam para um cenário de degradação sistêmica, algo que vai além de um simples blecaute elétrico.
O ciberespaço, nesse contexto, deixa de ser um apoio silencioso e passa a ocupar o centro da estratégia. Primeiro desorganiza, depois avança. Primeiro apaga, depois entra.
Uma mudança de doutrina, não de capacidade
Os Estados Unidos não descobriram agora como conduzir operações cibernéticas ofensivas. Essa capacidade vem sendo construída há mais de uma década e ganhou respaldo formal em 2018, quando uma diretriz de segurança nacional ampliou a autonomia do Pentágono para realizar ataques digitais ofensivos. Essa política foi mantida e ajustada nos governos seguintes.
O que muda agora não é o que pode ser feito, mas o que se escolhe admitir. Ao falar publicamente sobre o uso dessas capacidades, Trump transforma o ciberespaço em ferramenta explícita de poder estatal. Isso tem implicações profundas para a diplomacia, para a dissuasão e para o próprio conceito de guerra.
O recado para China e Rússia
Nenhum movimento desse tipo acontece no vácuo. Enquanto a Venezuela era o palco, a plateia real incluía China e Russia. Ambos os países são apontados por autoridades americanas como protagonistas de campanhas cibernéticas agressivas contra infraestruturas críticas, sistemas eleitorais e redes de telecomunicações dos Estados Unidos.
Ao sugerir que pode desligar uma capital inteira como parte de uma operação militar, Washington envia um aviso direto. A mensagem é simples e desconfortável: o que vocês fazem conosco, nós podemos fazer com vocês. Talvez com a mesma sofisticação. Talvez com mais.
O risco de falar demais
Nem todos dentro do próprio governo americano veem essa exposição com bons olhos. Especialistas em segurança nacional alertam que tornar públicas certas capacidades pode reduzir sua eficácia futura. Uma ferramenta revelada passa a ser estudada, adaptada e eventualmente neutralizada por adversários atentos.
O caso do malware Stuxnet, usado contra instalações nucleares iranianas anos atrás, é frequentemente citado como exemplo. Uma vez exposta, aquela capacidade específica deixou de ser um trunfo exclusivo. O mesmo pode acontecer com técnicas usadas na Venezuela, mesmo que seus detalhes nunca tenham sido totalmente revelados.
Guerra moderna, infraestrutura civil e limites éticos
Talvez o ponto mais sensível dessa história esteja fora do debate militar tradicional. Quando ataques cibernéticos atingem energia, comunicação e navegação, os impactos recaem diretamente sobre civis. Hospitais, transportes e serviços básicos dependem dessas infraestruturas. A fronteira entre alvo militar e dano colateral digital é perigosamente tênue.
Ao normalizar o uso do ciberespaço como ferramenta aberta de guerra, cria-se um precedente que pode ser replicado por outros países, nem todos com o mesmo grau de controle, responsabilidade ou preocupação com consequências humanitárias.
Um novo normal em construção
O episódio da Venezuela não parece ser exceção. Pelo contrário. Autoridades e ex autoridades americanas já indicam que operações cibernéticas devem se tornar parte regular do planejamento militar, integradas desde o início a ações cinéticas tradicionais.
O apagão de Caracas pode ter durado horas. O impacto estratégico, no entanto, deve se estender por anos. A guerra ficou menos visível, mais técnica e, agora, menos silenciosa.
A pergunta que fica não é se o ciberespaço será usado novamente. Isso parece inevitável. A questão real é outra: ao falar abertamente sobre esse poder, os Estados Unidos estão fortalecendo a dissuasão global ou apenas acelerando uma corrida armamentista digital que ninguém sabe como controlar?







