Segurança Digital

EUA bloqueiam US$ 52 milhões em criptomoedas ligadas a rede internacional de golpes

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O Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciou uma nova ofensiva contra a infraestrutura financeira e digital utilizada por redes internacionais de fraude.

Em uma ação coordenada, autoridades americanas informaram ter restringido mais de US$ 52 milhões em criptomoedas relacionadas à Xinbi Guarantee, plataforma acusada de funcionar como um mercado de serviços para operadores de centros de golpes.

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A operação foi divulgada em 9 de setembro de 2026 pelo escritório do procurador dos Estados Unidos para o Distrito de Columbia.

Segundo o comunicado, a iniciativa faz parte das ações da Scam Center Strike Force, força tarefa criada para combater fraudes digitais, lavagem de dinheiro e operações criminosas associadas principalmente a centros de golpes no Sudeste Asiático.

Com a ação mais recente, o Departamento de Justiça afirma que o volume total de ativos restringidos pela força tarefa chegou a aproximadamente US$ 938 milhões.

Um mercado para quem vive de aplicar golpes

De acordo com as alegações apresentadas em um mandado de apreensão tornado público pelas autoridades americanas, a Xinbi operava principalmente por meio do Telegram e funcionava como uma espécie de marketplace em língua chinesa voltado à indústria dos golpes digitais.

A descrição feita pelo governo americano ajuda a mostrar o nível de profissionalização alcançado por essas operações. Em vez de cada grupo criminoso precisar construir toda sua infraestrutura, fornecedores anunciavam serviços especializados dentro dos canais.

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Segundo o Departamento de Justiça, entre os serviços oferecidos estavam a criação de sites personalizados para falsas plataformas de investimento, lavagem de valores obtidos de vítimas de fraude e até recrutamento de pessoas para trabalhar em centros de golpes localizados no Sudeste Asiático.

É praticamente uma cadeia de fornecedores para fraude como serviço. A tecnologia muda, a interface fica mais sofisticada, mas o objetivo continua bastante analógico: tirar dinheiro da vítima.

A Xinbi também teria atuado como intermediária dos pagamentos. Segundo as autoridades, a organização mantinha os valores destinados aos fornecedores até que os serviços contratados fossem concluídos, oferecendo aos compradores uma espécie de garantia de que o serviço seria entregue.

Telegram entra no centro da investigação

O mandado citado pelo Departamento de Justiça descreve situações nas quais recursos pertencentes a vítimas americanas teriam sido rastreados até fornecedores que anunciavam serviços de lavagem de dinheiro nos canais da Xinbi.

Esses fornecedores também publicavam carteiras de criptomoedas para receber pagamentos.

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Em 7 de setembro de 2026, o Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito de Columbia autorizou a apreensão dos canais do Telegram utilizados para hospedar o marketplace, segundo o comunicado.

Xinbi anúncio no Telegram.
Um anúncio de um fornecedor no Telegram para recrutar agentes golpistas (‘Nível 1″). – Fonte: Departamento de Justiça dos Estados Unidos

A ação contra os canais é relevante porque mostra que a investigação não ficou restrita ao dinheiro movimentado. Ela atingiu também parte da infraestrutura utilizada para conectar operadores de golpes, fornecedores e serviços financeiros.

O Telegram aparece nesse caso como meio utilizado pelos investigados. O comunicado do Departamento de Justiça não afirma que a plataforma fazia parte da organização criminosa.

US$ 52 milhões entram na mira das autoridades

A operação também atingiu diretamente as criptomoedas relacionadas à rede.

Segundo o Departamento de Justiça, duas carteiras utilizadas pela Xinbi para receber pagamentos destinados aos fornecedores foram apreendidas. Juntas, elas mantinham aproximadamente US$ 12 milhões.

As autoridades também buscaram restringir outras 47 carteiras que, segundo a investigação, estariam associadas à lavagem de dinheiro dentro da rede da Xinbi e a fornecedores que teriam trabalhado para operadores de golpes.

Somadas as ações, mais de US$ 52 milhões em criptomoedas foram restringidos em um único dia.

O comunicado também agradece à Tether pela assistência prestada durante a investigação, sem detalhar no texto divulgado exatamente quais medidas técnicas foram realizadas pela empresa.

Tesouro americano também sancionou a Xinbi

A ofensiva não ficou limitada ao Departamento de Justiça.

O Office of Foreign Assets Control, o OFAC, órgão do Departamento do Tesouro americano responsável pela administração de sanções econômicas, designou a Xinbi como uma organização criminosa transnacional significativa.

Outras duas entidades foram sancionadas por supostamente terem fornecido apoio financeiro, material, tecnológico, bens ou serviços à Xinbi.

Como consequência das sanções, propriedades e interesses pertencentes às três entidades que estejam nos Estados Unidos ou sob posse ou controle de pessoas americanas ficam bloqueados e precisam ser reportados ao OFAC.

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A combinação entre investigação criminal, rastreamento de blockchain, apreensão de ativos e sanções financeiras mostra uma estratégia que tenta atacar não apenas quem aplica o golpe, mas a infraestrutura que permite transformar fraude digital em dinheiro utilizável.

Operação chegou a centros de golpes em Madagascar

Talvez a parte mais ampla da operação esteja longe das carteiras digitais.

A Scam Center Strike Force também enviou uma equipe a Madagascar para auxiliar autoridades locais em ações contra 13 centros de golpes que, segundo o Departamento de Justiça, eram operados por organizações criminosas chinesas.

A equipe americana permaneceu duas semanas no país e participou do processamento de mais de 3.200 dispositivos eletrônicos apreendidos.

Strike Force Team operação contra golpes com criptomoedas no Telegram.
Sala com evidências apreendidas em uma central de golpes em Madagascar. A equipe da força tarefa dos EUA auxiliou as autoridades locais no processamento do material. Foto: Departamento de Justiça dos EUA.

Segundo o comunicado, quase 400 pessoas foram presas nas operações. Pelo menos cerca de 30 delas foram identificadas pelas autoridades como lideranças chinesas dos centros e posteriormente repatriadas para a China pelo governo chinês.

A força tarefa afirma ainda ter iniciado suas próprias investigações a partir de entrevistas realizadas durante a operação.

Esse ponto amplia bastante a dimensão do caso. Estamos falando de uma estrutura que mistura fraude digital, infraestrutura tecnológica, movimentação internacional de criptomoedas e, segundo as autoridades americanas, tráfico e exploração de pessoas utilizadas nesses centros.

A indústria do golpe ganhou escala

O Departamento de Justiça afirma que a Scam Center Strike Force foi oficialmente lançada em novembro de 2025 para enfrentar organizações criminosas chinesas envolvidas principalmente com centros de golpes no Sudeste Asiático.

Os números apresentados pelo governo ajudam a explicar a preocupação.

Dados citados do Internet Crime Complaint Center, o IC3, indicam que esquemas de fraude facilitados por meios digitais responderam por quase 85% das perdas reportadas ao órgão em 2025.

Dentro desse universo, as perdas reportadas relacionadas a fraudes de investimento em criptomoedas teriam passado de US$ 4,57 bilhões em 2023 para US$ 8,65 bilhões em 2025. Um crescimento de 89% em apenas dois anos.

O próprio governo ressalta que esses valores provavelmente representam apenas uma parte do prejuízo real, já que muitas vítimas não registram denúncias.

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O problema não é simplesmente a criptomoeda

Casos como o da Xinbi costumam gerar uma conclusão fácil: criptomoedas são o problema. Só que a investigação descrita pelo próprio Departamento de Justiça mostra uma realidade mais interessante.

A mesma infraestrutura que permite movimentar ativos rapidamente também pode deixar rastros públicos que investigadores conseguem acompanhar.

No caso divulgado, autoridades afirmam ter rastreado recursos de vítimas até fornecedores específicos e carteiras publicadas nos canais utilizados pela rede.

O desafio está menos na existência da blockchain e mais no ecossistema construído ao redor dela.

Sites falsos, engenharia social, aplicativos de mensagem, recrutamento de vítimas, contas intermediárias, carteiras digitais e serviços especializados de lavagem podem funcionar como peças de uma mesma operação.

É a industrialização da fraude.

E talvez esse seja o principal ponto do caso Xinbi. O golpe digital moderno deixou de depender apenas daquele sujeito enviando uma mensagem mal escrita prometendo uma fortuna improvável.

Agora existe infraestrutura, fornecedores especializados, intermediários financeiros e mercados onde criminosos podem contratar serviços.

Quando o crime começa a funcionar como plataforma, combatê-lo exige algo além de bloquear um site ou prender quem estava diante do computador. É preciso desmontar o ecossistema.

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Felipe Ferraz

Profissional de tecnologia com formação em Análise e Desenvolvimento de Sistemas e MBA em Segurança da Informação. Atua na área de infraestrutura e segurança, escrevendo sobre ameaças cibernéticas, Linux e segurança digital.