Uma pesquisa da Forescout identificou 12.976 serviços de refrigeração acessíveis pela internet em 99 países. O problema vai muito além de uma invasão digital: alimentos, medicamentos e até operações hospitalares podem estar em risco.
Imagine entrar em um supermercado e descobrir que todos os produtos refrigerados precisam ser descartados. Não por uma queda de energia ou defeito nos equipamentos, mas porque alguém, do outro lado do mundo, decidiu alterar a temperatura dos refrigeradores.
Parece roteiro de filme? Pois foi justamente esse tipo de ataque que atingiu mais de 700 supermercados na França, em outubro de 2026.
Os criminosos manipularam temperaturas e configurações de degelo, provocando perdas de alimentos. O CERT-FR confirmou comprometimentos envolvendo equipamentos da Danfoss, Copeland e Dixell, embora a identidade dos responsáveis e o método exato de acesso permaneçam desconhecidos.
E o episódio francês pode representar apenas uma pequena parte de um problema muito maior.
Quase 13 mil serviços de refrigeração estão acessíveis
Pesquisadores do Vedere Labs, laboratório de segurança da Forescout, identificaram 12.976 serviços de refrigeração expostos na internet, distribuídos por 6.017 endereços IP públicos em 99 países e territórios.
A descoberta foi realizada com auxílio do Shodan, ferramenta que permite localizar dispositivos e serviços conectados à internet.
Vale esclarecer um detalhe importante: os números representam serviços detectados, não necessariamente equipamentos individuais. Um único endereço IP pode disponibilizar diferentes interfaces de gerenciamento.
Ainda assim, o cenário preocupa.
Estamos falando de tecnologias responsáveis por manter alimentos conservados, medicamentos armazenados corretamente e processos industriais funcionando dentro de temperaturas específicas.
E, aparentemente, parte dessa infraestrutura está mais acessível do que deveria.
Quais equipamentos apresentam maior exposição?
Entre os serviços identificados, os sistemas Copeland/Dixell XWEB lideraram o levantamento, com 7.075 ocorrências.
Na sequência aparecem Danfoss StoreView, com 4.697 registros, Copeland Site Supervisor, com 551, e Carel pCOWeb, com 513. Outros equipamentos somaram 140 exposições.
Outro dado chama atenção: aproximadamente 80% dos serviços Danfoss StoreView observados utilizavam versões antigas de firmware potencialmente afetadas por vulnerabilidades conhecidas.
Em agosto de 2025, a Danfoss divulgou duas falhas envolvendo controladores AK-SM 8xxA anteriores à versão 4.3.1.
A vulnerabilidade CVE-2025-41451 pode permitir execução remota de código, enquanto a CVE-2025-41452 pode provocar indisponibilidade do serviço.
Ambas exigem autenticação para exploração. Portanto, encontrar um equipamento exposto não significa automaticamente que qualquer pessoa consiga invadi-lo.
Mas deixar sistemas sensíveis acessíveis pela internet certamente não ajuda.
Ataques mostram que o problema já saiu da teoria
Segundo a Forescout, mais de 20 ataques contra sistemas de refrigeração foram reivindicados desde janeiro de 2026.
Grupos hacktivistas pró-Rússia, incluindo Z-Pentest Alliance e NoName057(16), aparecem entre os mais ativos nas reivindicações.
Os alvos incluem supermercados, vinícolas, instalações agrícolas e empresas de processamento de alimentos na Europa. Somente em 26 de abril, o grupo Z-Pentest reivindicou dez ataques.
E não se trata de uma ameaça completamente nova. Um boletim técnico da Danfoss, publicado em 2025, já mencionava incidentes ocorridos em 2022 envolvendo 16 supermercados russos e 40 estabelecimentos israelenses.
O ponto mais preocupante é que um invasor não precisa necessariamente instalar um malware destrutivo.
Dependendo do acesso obtido, basta utilizar funções legítimas do equipamento para modificar temperaturas e ciclos de degelo.
O resultado pode ser prejuízo financeiro, interrupção operacional e descarte de produtos.
Hospitais também podem estar na mira?
Agora imagine esse mesmo cenário dentro de um hospital. Vacinas, medicamentos, amostras laboratoriais e outros materiais sensíveis dependem de condições rigorosas de armazenamento.
Uma alteração indevida de temperatura pode comprometer esses produtos e afetar diretamente a assistência aos pacientes.
A pesquisa não identificou ataques confirmados contra refrigeradores hospitalares, mas alerta para a possibilidade de consequências físicas e financeiras.
Outro risco envolve empresas terceirizadas responsáveis pela manutenção remota desses equipamentos.
Credenciais compartilhadas, senhas roubadas e interfaces administrativas expostas podem transformar um acesso de manutenção em uma porta de entrada para criminosos.
Como proteger sistemas de refrigeração conectados?
A recomendação dos pesquisadores começa pelo básico: retirar interfaces administrativas da internet pública sempre que possível.
O acesso remoto deve utilizar conexões protegidas, autenticação multifator e contas individuais para técnicos e prestadores de serviço.
Atualizações de firmware, monitoramento de alterações nas configurações e alertas sobre comportamentos suspeitos também são fundamentais.
Além disso, empresas precisam identificar quais controladores estão acessíveis externamente e avaliar o impacto de uma eventual manipulação.
Porque, convenhamos, descobrir uma falha de segurança depois de perder toneladas de alimentos ou medicamentos não parece exatamente uma boa estratégia.
O caso mostra como a segurança cibernética deixou de ser apenas uma preocupação com computadores e servidores.
Quando equipamentos físicos dependem de sistemas conectados, um incidente digital pode rapidamente se transformar em um problema no mundo real.
E, nesse cenário, proteger a cadeia de refrigeração deixou de ser apenas uma questão de TI. É também uma questão de continuidade operacional e segurança.








