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Hackers roubam dados hoje para descriptografar no futuro

Harvest Now, Decrypt Later: por que hackers estão roubando dados que ainda não conseguem descriptografar

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Imagine um criminoso roubando um cofre que não consegue abrir. Em vez de abandonar o plano, ele leva o cofre para casa, guarda durante anos e espera até possuir uma ferramenta capaz de quebrar a fechadura.

No mundo da segurança cibernética existe uma estratégia baseada praticamente nessa lógica. Ela é conhecida como Harvest Now, Decrypt Later, expressão que pode ser entendida como capturar agora e descriptografar depois.

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O objetivo é simples: interceptar ou obter informações que atualmente estão protegidas por criptografia, armazenar esse material e esperar pelo momento em que uma tecnologia mais poderosa consiga quebrar a proteção. É justamente aqui que entram os computadores quânticos.

O problema parece pertencer ao futuro, mas organizações como o NIST alertam que informações que precisam permanecer confidenciais durante muitos anos podem estar expostas ao risco desde agora.

Isso acontece porque ninguém precisa possuir um computador quântico capaz de quebrar a criptografia hoje para começar a armazenar dados criptografados. E essa pequena diferença muda bastante a conversa sobre segurança pós quântica.

O que é Harvest Now, Decrypt Later

Harvest Now, Decrypt Later descreve um modelo de ameaça no qual um invasor obtém dados criptografados hoje mesmo sem conseguir acessar seu conteúdo.

Em vez de tentar quebrar imediatamente a criptografia, o atacante simplesmente armazena as informações. O plano é esperar.

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Caso computadores quânticos capazes de comprometer determinados sistemas criptográficos utilizados atualmente se tornem realidade, o criminoso poderia voltar aos dados armazenados e tentar descriptografá los.

O NIST destaca justamente esse cenário ao explicar por que a migração para criptografia pós quântica precisa começar antes da existência de computadores quânticos criptograficamente relevantes. Alguns segredos permanecem valiosos durante anos ou décadas.

É uma estratégia curiosa porque transforma o tempo em parte do ataque. O criminoso não precisa vencer a criptografia agora.

Precisa apenas conseguir os dados e ter paciência.

Mas computadores quânticos já conseguem quebrar a criptografia?

Não. Esse detalhe é importante porque computação quântica costuma produzir manchetes que fazem parecer que RSA, TLS e metade da internet acordaram inúteis numa terça feira qualquer.

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Não foi isso que aconteceu. Ainda não existe publicamente um computador quântico criptograficamente relevante capaz de executar ataques práticos contra os principais sistemas de criptografia de chave pública utilizados em larga escala.

Também não existe uma data certa para quando uma máquina desse tipo estará disponível. O próprio NIST afirma que as previsões variam. O problema é que migrar sistemas criptográficos utilizados em empresas, governos e serviços digitais pode levar muitos anos.

Historicamente, a integração completa de novos algoritmos em sistemas de informação pode levar entre 10 e 20 anos.

Portanto, esperar o computador quântico capaz de quebrar a criptografia aparecer para só então começar a substituí la seria uma estratégia, digamos, otimista demais.

Por que computadores quânticos ameaçam parte da criptografia atual

Grande parte da segurança da internet depende de problemas matemáticos extremamente difíceis para computadores convencionais resolverem em tempo viável.

Sistemas de criptografia de chave pública como RSA e aqueles baseados em curvas elípticas dependem dessa dificuldade computacional.

Computadores quânticos funcionam de maneira diferente dos computadores tradicionais e determinados algoritmos quânticos podem alterar essa equação.

O mais famoso nesse contexto é o algoritmo de Shor. Em um computador quântico suficientemente poderoso e tolerante a falhas, ele poderia resolver problemas matemáticos que sustentam importantes sistemas de criptografia de chave pública.

Isso não significa que toda criptografia deixaria de funcionar.

Também não significa que alguém poderá simplesmente apontar um computador quântico para qualquer arquivo criptografado e assistir às senhas aparecerem na tela como acontece em filmes ruins sobre hackers.

A preocupação está principalmente em determinados algoritmos de chave pública utilizados para proteger comunicações, estabelecer chaves e verificar identidades digitais.

É justamente por isso que pesquisadores vêm desenvolvendo novos algoritmos projetados para resistir tanto aos computadores tradicionais quanto aos futuros computadores quânticos.

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O dado roubado hoje pode continuar valioso daqui a dez anos

Aqui está o ponto que torna Harvest Now, Decrypt Later realmente interessante. Nem toda informação perde valor rapidamente.

Uma senha pode ser alterada amanhã. Um código temporário pode deixar de funcionar em alguns minutos. Determinados dados, porém, precisam permanecer confidenciais durante muitos anos.

Informações financeiras, propriedade intelectual, documentos estratégicos, comunicações governamentais e determinados registros pessoais podem continuar sensíveis por uma década ou mais.

O NIST cita justamente informações financeiras, propriedade intelectual, registros de saúde e dados relacionados à segurança nacional como exemplos de informações que podem precisar permanecer protegidas durante anos ou décadas.

Agora imagine que uma comunicação desse tipo seja capturada hoje enquanto permanece protegida pela criptografia atual.

O invasor talvez não consiga fazer absolutamente nada com ela em 2026. Mas e em 2036? Essa é a pergunta que organizações precisam fazer.

O prazo importante não é apenas quando um computador quântico capaz de atacar determinada criptografia poderá existir. Também importa por quanto tempo aquele dado precisa continuar secreto.

O ataque pode começar antes do computador quântico existir

Essa talvez seja a parte mais contra intuitiva do Harvest Now, Decrypt Later. O componente quântico pode estar no futuro, mas a coleta das informações pode acontecer no presente.

Um invasor que consiga obter tráfego criptografado ou copiar determinados conjuntos de dados não precisa compreender o conteúdo imediatamente.

Ele pode armazenar o material esperando por avanços futuros em capacidade computacional ou técnicas de criptoanálise.

É por isso que tratar segurança pós quântica como um problema para resolver somente quando os computadores quânticos estiverem prontos não funciona muito bem.

Quando isso acontecer, determinados dados poderão estar armazenados nas mãos de terceiros há anos.

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Não existe botão para voltar no tempo e substituir a criptografia utilizada em uma comunicação que já foi capturada.

Existe prova de que hackers já fazem isso?

Aqui precisamos separar possibilidade técnica de fato comprovado. O modelo Harvest Now, Decrypt Later é considerado uma ameaça relevante por instituições como o NIST e aparece nas estratégias de segurança pós quântica de grandes empresas de tecnologia.

Isso não significa, porém, que exista uma lista pública de grupos criminosos comprovadamente armazenando enormes quantidades de tráfego exclusivamente para descriptografá lo com computadores quânticos no futuro.

A própria natureza de uma coleta passiva torna esse tipo de atividade difícil de identificar.

Portanto, seria irresponsável afirmar que milhões de hackers estão neste momento enchendo discos rígidos com dados criptografados esperando pelo grande dia quântico.

O risco existe porque a estratégia é tecnicamente plausível e porque determinados dados possuem uma vida útil de confidencialidade longa o suficiente para tornar a espera interessante.

Em segurança cibernética, esperar a primeira grande vítima aparecer para reconhecer uma ameaça raramente é a estratégia mais barata.

A resposta está na criptografia pós quântica

Para enfrentar esse cenário, pesquisadores trabalham há anos em algoritmos criptográficos desenvolvidos para resistir a ataques realizados tanto por computadores convencionais quanto por computadores quânticos.

Esse campo é conhecido como criptografia pós quântica, ou PQC.

Em 2024, o NIST finalizou seus primeiros padrões de criptografia pós quântica. Entre eles está o ML KEM, padronizado pelo FIPS 203 para estabelecimento de chaves. O instituto continua trabalhando em orientações para auxiliar organizações na migração para os novos padrões.

E essa migração já começou a sair dos laboratórios. Empresas estão incorporando mecanismos pós quânticos a produtos e infraestruturas existentes porque substituir criptografia em escala não acontece da noite para o dia.

Certificados, APIs, conexões TLS, sistemas corporativos, dispositivos, aplicações antigas e infraestrutura de rede podem depender de mecanismos criptográficos diferentes.

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Trocar tudo isso exige descobrir primeiro onde a criptografia está sendo utilizada. Parece óbvio. Em ambientes corporativos gigantes, raramente é.

IBM já está levando proteção pós quântica para seus sistemas

A movimentação das empresas ajuda a mostrar que o assunto deixou de ser apenas discussão acadêmica.

A IBM afirma que está trabalhando na adoção de tecnologias resistentes a ameaças quânticas e considera Harvest Now, Decrypt Later um dos riscos que justificam começar essa transição antes da chegada de computadores quânticos criptograficamente relevantes.

Esse movimento já chega a produtos corporativos.

O IBM MQ 10, por exemplo, incorporou suporte ao ML KEM e ao Hybrid ML KEM em conexões protegidas por TLS 1.3, permitindo que organizações comecem a preparar comunicações críticas para um cenário pós quântico.

A lógica é justamente não esperar a ameaça se tornar prática para começar a substituir a infraestrutura.

Outras empresas também estão avançando nessa direção. A Cloudflare, por exemplo, já utiliza mecanismos híbridos pós quânticos em partes de sua infraestrutura e estabeleceu como meta atingir proteção pós quântica em todo seu portfólio até 2029.

Quando empresas que trabalham dos dois lados dessa história, desenvolvendo computação quântica e protegendo infraestrutura contra seus possíveis impactos, começam a mexer na criptografia atual, talvez seja prudente prestar atenção.

Criptografia pós quântica não exige um computador quântico

Existe outra confusão comum provocada pelo nome. Você não precisa de um computador quântico para utilizar criptografia pós quântica.

Os algoritmos são desenvolvidos para funcionar em computadores convencionais, mas utilizam problemas matemáticos considerados resistentes aos ataques conhecidos que poderiam ser executados por computadores quânticos.

Isso permite iniciar a transição antes que a ameaça exista em escala prática. Também existem implementações híbridas que combinam mecanismos criptográficos tradicionais e pós quânticos durante esse período de transição.

A ideia é evitar aquela clássica estratégia tecnológica de descobrir que toda a infraestrutura precisa ser atualizada na sexta feira porque alguma coisa importante acontece na segunda.

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Empresas precisam descobrir onde a criptografia está escondida

Para organizações, a preparação não começa simplesmente instalando um algoritmo novo.

Primeiro é necessário descobrir quais sistemas utilizam criptografia, quais algoritmos estão presentes, quais informações precisam permanecer confidenciais durante longos períodos e quais fornecedores dependem de tecnologias que poderão precisar ser substituídas.

O NIST recomenda que organizações identifiquem seus dados mais sensíveis, desenvolvam planos de migração e conversem com fornecedores sobre suporte à criptografia pós quântica.

Essa capacidade de substituir algoritmos sem reconstruir sistemas inteiros também está relacionada ao conceito de agilidade criptográfica.

Quanto mais rígida for a infraestrutura, mais difícil será trocar mecanismos criptográficos quando novas vulnerabilidades ou padrões surgirem.

E computação quântica não é a única razão para pensar nisso. Algoritmos envelhecem, vulnerabilidades aparecem e padrões mudam.

A diferença agora é que existe uma mudança tecnológica potencialmente grande o suficiente para obrigar boa parte da indústria a revisar fundamentos utilizados há décadas.

O computador quântico capaz de quebrar a internet ainda não chegou

É importante terminar sem transformar computação quântica em roteiro de apocalipse digital.

Não sabemos exatamente quando computadores quânticos terão escala e correção de erros suficientes para comprometer de maneira prática sistemas criptográficos amplamente utilizados hoje.

Pode levar anos e certamente caros leitores(a) previsões podem mudar. Avanços podem acelerar ou atrasar essa linha do tempo. Mas Harvest Now, Decrypt Later muda a pergunta.

Em vez de perguntar apenas quando computadores quânticos conseguirão quebrar determinada criptografia, precisamos perguntar se os dados que estamos protegendo hoje ainda serão valiosos quando isso acontecer.

Se a resposta for sim, o futuro já entrou no cálculo da segurança atual. Talvez essa seja a parte mais desconfortável dessa ameaça.

Os computadores capazes de abrir o cofre ainda não existem. Mas nada impede alguém de começar a guardar os cofres.

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Felipe Ferraz

Profissional de tecnologia com formação em Análise e Desenvolvimento de Sistemas e MBA em Segurança da Informação. Atua na área de infraestrutura e segurança, escrevendo sobre ameaças cibernéticas, Linux e segurança digital.