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Usou WiFi no aeroporto? Hackers expõem dados de 8,7 milhões de passageiros

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Aeroportos são lugares onde normalmente nos preocupamos com passaporte, horário do embarque, tamanho da mala e aquele café que inexplicavelmente custa quase o preço da passagem. Agora existe mais um item para colocar nessa conta: os dados pessoais.

Hackers acessaram informações de aproximadamente 8,7 milhões de clientes de três grandes aeroportos do Reino Unido. E boa parte dos dados roubados tem origem em algo bastante comum entre passageiros: o cadastro realizado para usar o WiFi disponível nos terminais.

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O ataque atingiu sistemas relacionados aos aeroportos de Manchester, East Midlands e London Stansted, todos administrados pelo Manchester Airports Group, o MAG. Segundo a empresa, os criminosos também exigiram pagamento de resgate pelos dados obtidos durante a invasão.

O grupo aeroportuário recusou pagar.

Para quem está no Brasil, pode parecer apenas mais um ataque ocorrido do outro lado do Atlântico. O problema é que o caso expõe algo muito mais próximo da nossa rotina digital. Informações entregues em poucos segundos para acessar uma rede WiFi podem permanecer armazenadas durante muito mais tempo e, eventualmente, acabar nas mãos erradas.

O que os hackers conseguiram roubar

Segundo o Manchester Airports Group, a maior parte dos registros acessados pelos hackers estava limitada aos endereços de e-mail fornecidos por passageiros durante o cadastro para utilizar o WiFi dos aeroportos.

Esses registros representam a maioria dos cerca de 8,7 milhões de clientes envolvidos no incidente.

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Mas nem todo mundo teve apenas o endereço de email comprometido.

Alguns clientes tiveram outras informações acessadas, incluindo nomes, códigos postais e placas de veículos. Esses dados estavam relacionados a serviços oferecidos pelos aeroportos, como reservas de estacionamento, acesso a salas VIP e serviços de passagem rápida pelos controles.

A empresa afirmou que o sistema comprometido não armazenava dados bancários ou informações de pagamento dos clientes.

Também informou que a segurança dos passageiros e os sistemas relacionados à segurança da aviação não foram comprometidos.

Isso é importante porque coloca o incidente em perspectiva. Não estamos falando de criminosos assumindo sistemas de controle de voo ou interferindo diretamente nas operações dos aeroportos. O problema foi o acesso a uma gigantesca quantidade de informações de clientes.

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E 8,7 milhões de registros não são exatamente uma planilha esquecida no computador do estagiário.

Hackers exigiram resgate pelos dados roubados

Além de acessar as informações, os responsáveis pelo ataque tentaram transformar os dados roubados em instrumento de extorsão.

Segundo o MAG, os hackers exigiram um pagamento para devolver os dados obtidos durante a invasão. O valor solicitado pelos criminosos não foi divulgado.

A empresa decidiu não pagar o resgate.

Esse modelo de ataque ajuda a entender como o cibercrime mudou nos últimos anos. Bloquear computadores e impedir uma empresa de trabalhar não é a única maneira de pressionar uma vítima.

Roubar os arquivos antes de qualquer bloqueio permite aos criminosos ameaçar a organização com a exposição ou utilização dessas informações.

Mesmo quando uma empresa possui cópias de segurança e consegue manter seus sistemas funcionando, surge outro problema: os dados já saíram do ambiente corporativo.

É quase a versão digital de alguém entrar na sua casa, fotografar documentos e depois cobrar para prometer que vai apagar as fotos. E a parte importante dessa frase é justamente a promessa.

Aeroportos descobriram a invasão na terça feira

O Manchester Airports Group informou que tomou conhecimento do incidente na terça feira. Depois da descoberta, a empresa afirma ter impedido que os invasores continuassem acessando os sistemas afetados.

O grupo também declarou que começou a trabalhar com especialistas em segurança cibernética e adotou medidas adicionais para proteger seus clientes e sua infraestrutura.

A identidade dos responsáveis pelo ataque seria conhecida pelo MAG, embora não tenha sido divulgada publicamente nas informações apresentadas sobre o incidente.

As autoridades britânicas responsáveis pela proteção de dados também foram informadas.

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Para quem teve informações expostas, porém, existe uma pergunta muito mais prática: o que um criminoso consegue fazer apenas com email, nome, código postal ou placa de veículo? Mais do que parece.

O perigo pode começar depois do vazamento

Quando aparece uma notícia sobre vazamento de dados e descobrimos que senhas e cartões de crédito não foram comprometidos, existe uma tendência natural de considerar o problema menos grave.

Só que dados pessoais não precisam incluir uma senha para terem valor.

Informações sobre uma pessoa podem ser utilizadas para construir golpes muito mais convincentes. Quanto mais contexto o criminoso possui, mais fácil fica criar uma mensagem que pareça legítima.

Imagine receber um email mencionando corretamente um aeroporto que você utilizou ou algum serviço relacionado à viagem. A mensagem informa que existe um problema na reserva e pede uma confirmação.

Talvez apareça um botão para atualizar os dados. Talvez seja necessário fazer um pequeno pagamento. Talvez exista um arquivo com supostas informações da viagem. O contexto faz sentido e a vítima baixa a guarda.

É justamente aí que phishing e engenharia social funcionam melhor. O criminoso não precisa conhecer toda a sua vida. Ele precisa saber o suficiente para fazer você acreditar que a mensagem é verdadeira.

Um endereço de email isolado pode não parecer muito. Um email associado a informações sobre serviços de viagem já conta uma história diferente.

O WiFi gratuito também coleta dados

Talvez o ponto mais interessante desse ataque esteja justamente na origem de boa parte dos milhões de endereços de email acessados pelos hackers. O WiFi do aeroporto.

Conectar a uma rede pública virou um comportamento praticamente automático. Você chega ao terminal, procura a rede disponível, abre a página de cadastro, informa o email, aceita os termos que provavelmente ninguém pretende transformar em leitura de férias e começa a navegar.

A conexão pode durar algumas horas, já o cadastro, não necessariamente.

As informações fornecidas precisam ser processadas e podem ser armazenadas pelos sistemas responsáveis pelo serviço. Quando milhões de passageiros utilizam a mesma infraestrutura ao longo do tempo, o resultado pode ser uma enorme base de dados. E grandes bases de dados chamam atenção de criminosos.

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Isso não significa que utilizar WiFi de aeroporto seja automaticamente perigoso. Também não significa que precisamos olhar para cada rede pública como se houvesse um hacker de capuz sentado no portão de embarque. A realidade costuma ser menos cinematográfica.

O ponto é outro: mesmo uma interação aparentemente descartável pode gerar informações que permanecem armazenadas em algum sistema.

Por que esse ataque importa para quem está no Brasil

O incidente aconteceu no Reino Unido, mas o modelo que permitiu a exposição dos dados não é exclusividade dos aeroportos britânicos.

Brasileiros utilizam WiFi em aeroportos, fazem reservas de estacionamento pela internet, acessam salas VIP, compram serviços adicionais e entregam informações pessoais para diferentes plataformas durante uma viagem. Isso acontece no Brasil e no exterior.

Quanto mais digital se torna a experiência de viajar, maior é a quantidade de sistemas envolvidos antes mesmo de o passageiro entrar no avião.

Companhias aéreas, aeroportos, estacionamentos, hotéis, aplicativos, programas de fidelidade e plataformas de reservas podem armazenar partes diferentes da nossa identidade digital.

O problema é que você pode utilizar senhas fortes, ativar autenticação em duas etapas e tomar todos os cuidados recomendados, mas ainda assim ter informações expostas porque uma empresa que armazenava seus dados sofreu uma invasão.

Segurança digital não depende apenas do que fazemos. Também depende de quem guarda nossas informações.

WiFi público não é o único problema

O caso também serve para evitar uma conclusão fácil demais: simplesmente parar de utilizar WiFi público não resolveria o problema.

Os hackers também conseguiram acessar informações relacionadas a outros serviços dos aeroportos.

Isso mostra que o ponto central não é apenas a rede utilizada pelo passageiro, mas a quantidade de dados acumulada ao longo da relação entre cliente e empresa.

Cada cadastro pode parecer insignificante individualmente.

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Um email aqui, uma placa de veículo ali, um código postal para confirmar uma reserva. Quando essas informações são reunidas em milhões de registros, a história muda.

Para criminosos especializados em fraude e engenharia social, contexto tem valor. E nós produzimos contexto digital praticamente o tempo inteiro.

Depois do ataque, desconfiança vale mais do que pânico

Para quem já utilizou algum dos aeroportos envolvidos, principalmente o WiFi ou serviços digitais oferecidos nos terminais, mensagens inesperadas relacionadas a viagens merecem atenção especial.

Emails, mensagens ou ligações que criam urgência devem ser tratados com cautela. Principalmente quando pedem senha, confirmação de pagamento, acesso a links ou abertura de arquivos.

Também vale desconfiar de mensagens que parecem saber detalhes demais sobre uma viagem. Depois de um vazamento, justamente essas informações podem ser utilizadas para tornar uma fraude mais convincente.

Mas essa recomendação vai além dos 8,7 milhões de clientes envolvidos neste ataque.

Vale para qualquer grande vazamento de dados. O ataque contra a empresa pode terminar quando os hackers perdem acesso ao sistema. Para quem teve as informações roubadas, porém, os efeitos podem durar muito mais.

No fim, aquele cadastro de poucos segundos para conseguir internet enquanto espera o voo pode parecer completamente esquecível. O banco de dados onde ele foi armazenado talvez não tenha esquecido você.

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Felipe Ferraz

Profissional de tecnologia com formação em Análise e Desenvolvimento de Sistemas e MBA em Segurança da Informação. Atua na área de infraestrutura e segurança, escrevendo sobre ameaças cibernéticas, Linux e segurança digital.